domingo, 9 de janeiro de 2011

O luxo da São Paulo antiga

Há na cidade 9 casarões da antiga elite, vestígios da vida dos barões do café

Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S.Paulo

Nem faz tanto tempo assim. Na virada do século 19 para o 20, ser rico em São Paulo significava viver em um casarão, um palacete. Com dezenas de empregados, prataria e roupas importadas da Europa e novidades tecnológicas como uma máquina de escrever. Era a aristocracia cafeeira, a elite paulistana.

Exemplos desse modo de viver estão no livro O Palacete Paulistano (editora WMF Martins Fontes), da especialista em arte e arquitetura Maria Cecília Naclério Homem. "Os palacetes são a evolução da moradia da elite cafeeira", comenta ela, que elencou casas construídas na cidade entre 1867 e 1918 - o período escolhido vai da construção das ferrovias, que permitiram a mudança dos barões do café para a capital, ao fim da Primeira Guerra, marco da industrialização paulista.

O Estado visitou os 28 endereços de antigos casarões que aparecem no livro. "São os exemplos mais representativos. Eram ocupados pelos que comandavam a cultura, a economia e a política paulistas", justifica. Apenas nove ainda estão de pé - confira acima cada um.

Histórico. Enquanto a cidade crescia - o número de açougues saltara de 10 para 34, as seis padarias passaram a 40 -, expandia-se também a cultura cafeeira. Era fim do século 19 e o antigo "cinturão verde" - chácaras construídas ao redor do velho centro - já começava a se desmembrar.

Ali, foram construídos os primeiros palacetes, perto da Estação da Luz, com suas novas ruas, servidas por bondes a tração animal. O primeiro casarão de que se tem notícia foi o do Barão de Piracicaba, de 1877, na Rua Brigadeiro Tobias. Hoje não há sinal dele.

Em 1900, São Paulo já era a "metrópole do café" e tinha em seu centro um "nó de ferrovias". Fazendeiros continuavam a chegar com seus filhos: agora empresários, médicos, engenheiros. Novas casas foram erguidas na Avenida Paulista.

Mas como viviam esses ricos? Para a historiadora Vânia Carneiro de Carvalho, do Museu Paulista, havia uma dicotomia clara entre o masculino e o feminino na organização das moradias. "À mulher, cabia tudo o que era decorativo. Ao homem, o funcional: máquina de escrever, por exemplo", diz ela, que analisou o interior dos casarões em seu livro Gênero e Artefato (Edusp).

Ela também destaca a vaidade da elite em exibir objetos de decoração, muitas vezes de forma exagerada. "Era visto como sinal de bom gosto. Assim, quadros, enfeites, conjuntos de cristais e porcelana e prataria ficavam expostos", exemplifica. "Na sala de jantar, havia verdadeiras vitrines com as louças, na maior parte importadas da França."

SARAUS DA ELITE

Era no salão do palacete de dona Veridiana da Silva Prado, precursora do feminismo no País, que a elite se reunia na virada para o século 20. Sobre um afresco de Almeida Jr., ainda hoje no local, escreveu a Princesa Isabel: "Deixa a desejar como obra dele". O resto da casa, com influência francesa como a escada ao lado, porém, agradou à princesa. Gostou da "salinha de escrever de vista esplêndida", dos jardins gramados, do "lagozinho", das "plantações de rosas e cravos". "Vim de lá encantada", escreveu em carta de 1884.

HALL DAS ARTES

O hall de entrada da Vila Penteado, construído em 1902 e inspirado no estilo Art Nouveau de Paris, recebia também espetáculos teatrais. As salas de visitas - como o salão dos espelhos, preservado - abriam-se para os bailes. Postais do início do século 20 retratavam o casarão.

O CASARÃO DOS SEM-TETO

Quinze religiosos e 57 sem-teto moram onde outrora era o luxuoso palacete do cafeicultor José de Souza Queiroz - o primeiro a ostentar a marca de um milhão de pés de café - e sua família. Desde 2004, ali funciona uma das sedes da Fraternidade de Aliança Toca de Assis. "Vejo nisso o sinal da graça do bom Deus: hoje a casa do barão do café acolhe um homem que pela sociedade não tem nem vez nem voz", diz o guardião da comunidade, irmão Anselmo Maria do Coração Misericordioso de Jesus.

O JARDINEIRO DE RAMOS DE AZEVEDO

A casa onde o arquiteto Ramos de Azevedo viveu a partir de 1891 continua de pé, na Liberdade. Foi restaurada em 2002 e preserva elementos originais: as escadarias de madeira, o banheiro com peças fixas (raríssimo na época), o poço artesiano no quintal (quando a vizinhança toda não tinha água), o vitral em que retrata sua grande obra, o Teatro Municipal. No jardim, ainda estão as estufas do arquiteto - e é esse o local de trabalho de Antônio Rodrigues Velame, de 75 anos, o Toninho, que teve um único emprego na vida: jardineiro dos parentes de Ramos de Azevedo. Começou trabalhando na Casa das Rosas em 1955, quando ainda era morada de Lúcia, filha do arquiteto. Depois, foi contratado por Anna Rosa, esposa de Ernesto, neto do arquiteto. E hoje é o jardineiro da editora que funciona no antigo casarão do arquiteto. Já são 55 anos ligados às plantas e flores da família. "Devo tudo a eles, aos jardins das casas deles", diz.

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Disponível em: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje


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